setembro 8 2011

A Dança das Almas – Cadu Lima Santos

Em um prédio na cidade de São Paulo no ano de 1970, houve o baile de aniversário de uma garota que completava quinze anos. A debutante estava toda feliz e a festa, muito animada, com música ao vivo e vários casais apaixonados dançando ao som de valsa. O evento ocorria no quinto andar do edifício quando, por volta das 22h30, aconteceu algo terrível. Houve um incêndio, seguido de explosão, após um vazamento de gás. Das 150 pessoas presentes, cinquenta morreram, inclusive a debutante e o namorado.

No dia seguinte, os corpos foram retirados dos escombros. Aquele acontecimento terrível deixou todos traumatizados. Uma das pessoas que mais sentiu foi Taís, de treze anos, irmã da debutante Laís. Era muito apegada a ela.

Passaram-se anos. Taís se casou com um bom homem chamado Mauro e, com ele, teve dois filhos: Laís, em homenagem à irmã, e Lauro.

Taís sempre ouvia falar que no prédio onde ocorrera a tragédia, reconstruído tempos depois, as pessoas viam as luzes acesas no quinto andar, depois da meia-noite, quando o local estava vazio. Ouvia-se o som de valsa, várias pessoas que dançavam. Após quinze minutos, tudo desaparecia. Chamavam aquele baile sobrenatural de Dança das Almas.

O prédio, principalmente o quinto andar, era tido como assombrado. Fantasmas surgiam e desapareciam nos corredores ocupados por salas comerciais, o que não impedia que, durante o dia, as pessoas trabalhassem normalmente no local.

Quando Taís completou 35 anos, enfim, foi até o prédio para ver se era mesmo verdadeira a tão comentada Dança das Almas. Ao chegar, não entrou. Começou a chorar ao se lembrar da irmã e das muitas pessoas queridas mortas no incêndio.

À meia-noite, Taís viu o espetáculo sobrenatural, as luzes acesas, ouviu o som da valsa. Ela voltou a chorar e resolveu entrar no prédio. No quinto andar, avistou Laís na porta do salão. Tudo estava como há muitos anos.

— Minha irmã querida — disse Laís. — Eu estava esperando por você. Venha participar da valsa.

Taís não conseguiu falar de tão emocionada. Reencontrou o primo Pedro, namorado de Laís, que a chamou para dançar.

Quando a Dança das Almas estava prestes a terminar, Laís disse para a irmã:

— Nós esperávamos todos esses anos a sua vinda. Agora é hora de partirmos. O baile chegou ao fim, amigos! Vamos embora deste mundo. Minha irmã dançou, pois ela não tinha dançado na noite do meu aniversário.

As duas irmãs se abraçaram. Laís e os outros foram embora após abrirem um portal para o mundo espiritual.

O prédio nunca mais teve assombrações pelos corredores e não se viu mais lá a Dança das Almas. Taís ficou feliz por ter se despedido das pessoas que amava.

Bom, apesar da tragédia ao menos esse conto não teve um final tão infeliz, afinal Taís teve a oportunidade de rever e se despedir das pessoas que amava.

(Roberta Dias)

julho 3 2009

Divã – Martha Medeiros

Diva - Martha Medeiros

O livro conta à história de uma mulher com seus quarenta e poucos anos, casada e com três filhos.

Mercedes decide fazer análise e durante as freqüentes sessões com Lopes, ela narra toda a sua
vida desde a infância.

Seguiu todas as fases, brincou de boneca, teve medo do escuro, ficou nervosa com o seu primeiro beijo, bateu a cabeça no teto do carro enquanto trocava uns "amassos", mas suas idéias estão longe de ser cor-de-rosa e isso a difere das demais mulheres.

Forte, prática, decidida, fogosa, engraçada, teimosa e autoritária, Mercedes não considera-se vítima de ninguém, sabe que é várias mulheres em uma só e precisa se autoconhecer.

Na verdade, Mercedes pode ser comparada a um vulcão adormecido, que está pronto para explodir a qualquer momento e essa explosão surge da necessidade de quebrar seus próprios tabus, cometer loucuras, porque como ela mesma disse: "Se ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir".

Com o decorrer das sessões de análise, Mercedes descobre-se falível. Segundo ela, a sua cabeça é como um guarda que não permite que ela estacione em lugar algum. Ela fica dando voltas em seu cérebro e quando encontra uma vaga para ocupar, o guarda diz: circulando, circulando.

Dei boas risadas lendo esse livro e separei mais alguns trechos interessantes:

"Eu não tenho medo de perder o senso. Eu tenho medo é desta eterna vigilância interior, tenho medo do que me impede de falhar".

"Não me sinto disputando ninguém, não me sinto insegura, confio mais na paz que ele me dá doque numa imaginação que só quer me infernizar".

"Suporto tudo nessa vida, menos as fases transitórias, aquelas onde já abandonamos o lugar em que estávamos mas ainda não chegamos onde queremos".

"Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos".

"A liberdade é atraente quando existe como promessa, mas enlouquece quando se cumpre".

"Não gosto de nada que é raso, de água pela canela. Ou mergulho até encontrar o reino de Atlântida, ou fico à margem, espiando de fora".

"Não gosto da vida em banho-maria, gosto de fogo, pimenta, alho, ervas..."

"Sabemos quem somos e o que sentimos, mas não sabemos até quando".

É isso, Mercedes mergulhou fundo em si mesma, respondeu sim, não, e agüentou as conseqüências.

(Roberta Dias)