setembro 6 2011

A Manhã Perfeita – Gordon Banks

Acordei e olhei ao redor. O despertador ainda não tinha tocado; estava com meia hora de antecedência naquele dia. Eu queria chegar cedo ao trabalho para impressionar o chefe, afinal era o novo gerente de vendas da empresa. Batalhei durante meses com uma concorrência muito pesada pela promoção, mas havia uma semana o patrão finalmente reconhecera meus esforços e agora eu teria uma sala espaçosa no nono andar.

Levantei e abri a janela com entusiasmo. Fazia um dia lindo lá fora, uma manhã perfeita. Fiz a barba com calma, depois tomei um banho quente de dez minutos; o vapor encheu o banheiro e aquilo me acalmou. Fui para a cozinha e abri a geladeira; os restos da pizza da noite anterior estavam lá, atum e portuguesa, e pareciam convidativos. Resolvi comê-los e aí juntei ao menu mais duas bananas e um iogurte de mel. Terminei o café com um copo de suco de laranja que eu tinha preparado minutos antes de me sentar à mesa.

Coloquei minha camisa amarelo-canário, o dia pedia. Vesti o terno azul-escuro que combinava com a camisa e a gravata vermelha que combinava com o terno. Ia também estrear meus sapatos pretos novos. Um gerente nacional de vendas de aparência impecável. Prendi um guardanapo no colarinho enquanto escovava os dentes e, depois de jogá-lo fora, penteei o cabelo.

— Você está ótimo! — sorri e dei uma piscadela espirituosa para o cara do espelho.

Saí de casa e o dia estava maravilhoso, um céu azul e o sol brilhando, mas sem queimar a gente. Uma manhã perfeita. Era uma caminhada de cinco minutos até o metrô. Inspirei aquele ar fresco de agosto, verifiquei se não estava esquecendo nada, chaves, carteira, maleta, e então parti.

Eu era fã daquele tempo agradável. Logo antes de a primavera realmente começar, a mulherada geralmente usava pouca roupa na rua e eu estava estranhamente propício a passar cantadas naquela manhã. Estava me sentindo ótimo, tudo na minha vida ia bem naquele ano, saúde, família, amigos. A única coisa da qual eu sentia falta era uma companheira para compartilhar minha vida maravilhosa. Mas se dependesse de mim, esse problema logo estaria resolvido.

Entrei na estação do metrô e evitei as escadas rolantes. Sempre achei coisa de preguiçoso. Segui descendo pela escada fixa comum. Paralelo a mim estava a escada rolante que subia e uma pequena multidão de trabalhadores apressados.

Foi então que vi subindo pelas escadas rolantes, espremida no meio da multidão, a mulher mais linda na qual já colocara os olhos. Uma morena lindíssima de olhos cor de mel; usava um vestidinho social cor de grafite e uma bolsa que combinava com os sapatos pretos. Não consegui tirar os olhos dela e minha alegria foi indescritível quando percebi que ela também estava me encarando esfomeadamente, com um sorrisinho discreto no canto da boca. Eu tinha me barbeado e estava com meu terno azul-fatal. Estou irresistível, pensei.
Quando finalmente passamos um do lado do outro, arrisquei um sonoro oi que ela respondeu, muito simpática. Ainda descendo as escadas, virei a cabeça para continuar a vê-la e dizer mais alguma coisa. Foi quando ouvi um estalo logo abaixo de mim. Uma dor aguda e urgente me subiu pela perna e foi aí que me dei conta do meu tornozelo quebrado.

Tropecei e comecei a rolar pelas escadas. Devo ter ouvido mais uns dois estalos que indicavam que mais alguma coisa tinha se partido dentro de mim. A escada era longa e tive muito tempo para me machucar. Dava para sentir o peso do sangue escorrendo no interior do meu peito, de uma forma que ele obviamente não deveria estar. Nos últimos degraus da escada, meu cotovelo bateu no chão e virou meu corpo de frente ainda rolando. Dei uma cambalhota desajeitada que me lançou um metro no ar; aterrissei em cima da minha cabeça. Tentei gritar quando senti meu pescoço quebrando, mas meu corpo já não respondia.

Caí no átrio estirado, paralisado. A morena estava no alto da escada olhando horrorizada, algumas pessoas se aproximaram de mim. Ficou frio de repente, eu não sentia meu corpo direito, era uma sensação estranha. Meus olhos estavam abertos, mas não conseguia movê-los.

Não havia mais dor; percebi que não estava respirando e me desesperei ainda mais quando não houve nenhum reflexo do corpo pedindo por ar. Logo tudo começou a escurecer e senti que era o fim. Meu corpo estava se desligando, eu ia morrer.

Eu morri naquela manhã perfeita.

Uau! Que conto é esse? O homem se esforçou tanto para atingir seu objetivo e nem chegou a ocupar sua tão espaçosa sala no nono andar. Parece trágico e triste não é mesmo? Mas acontece! Coitado, morreu sem sua desejada e idealizada companheira para sua vida dita como tão perfeita.

(Roberta Dias)

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Publicado 09/06/2011 por Roberta na categoria "..:: Contos ::..

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