outubro 7 2010

Neurastenia – Florbela Espanca

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Marias!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça renda de Veneza…

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza…

Chuva… tenho tristeza! Mas por quê?
Vento… tenho saudades! Mas de quê?
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Diagam isto que sinto que eu não posso!!..

junho 21 2010

Desejos vãos – Florbela Espanca

Eu queria ser o Mar de altivo porte
Que ri e canta, a vastidão imensa!
Eu queria ser a Pedra que não pensa,
A pedra do caminho, rude e forte!

Eu queria ser o sol, a luz intensa,
O bem do que é humilde e não tem sorte!
Eu queria ser a árvore tosca e densa
Que ri do mundo vão e até da morte!

Mas o Mar também chora de tristeza…
As árvores também, como quem reza,
Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!

E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia!
E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

Maio 18 2010

Sorriso Inocente – Rosângela de Fátima Borges Faust – Ijuí – RS

Era algo guardado,
um dia lembrado
há pouco tempo semeado,
agora germinado, cultivado.

Uma pequena semente
sem necessidade de água ou de sol
para nascer em botão.

Plantada em lugar
seguro, profundo
sem tentações.

E cresceu, tornou-se grande.

Aí, um vento mau passou
mas não a derrotou,
nem mesmo a esfriou.

Uma pequena marca daquele vento ficou
mas ela esqueceu-se
aqueceu-se
e floresceu.

Aquela pequena semente
tão resistente
não exigia nada
nem mesmo esperança
ou cuidados
ou carinho
ou certeza.

Estava ali gravada
era recente.

Sua permanência
de vida, de flor
de amor
era a magia e o encanto
do seu sorriso inocente.

Maio 2 2010

Distrai, meu coração, tua amargura…

Distrai, meu coração, tua amargura,
Os males que te assanha a fantasia:
Provém da formosura essa agonia?
Seja o seu lenitivo a formosura:

Por mil objetos adoçar procura
O ardor, que lavra em ti de dia em dia;
Mas ó fatal poder da simpatia!
Ó moléstia d’amor, que não tem cura!

Astúcia exercitar que te resista,
Minha Anália, meu bem, debalde intento,
Está segura em mim tua conquista.

Como hei de minorar-te o vencimento,
Coartar o império teu, se as mais à vista
Valem menos que tu no [email protected]

(Os Amores – Poemas Escolhidos – Bocage)